domingo, 21 de fevereiro de 2010

Escalada...

Escalei até ao mais alto dos meus precipícios, e fi-lo sem medo, sem recear a altura ou a força dos ventos! Escalei tanto que as mãos ficaram em ferida e os lábios rasgados pelo frio da altitude! Escalei até onde não imaginava ser possível! A vista daqui é linda! Vejo e sinto coisas maravilhosas! Sinto a força das montanhas, o carinho da lua e a generosidade das estrelas! Cá em cima sinto-me só, mas também feliz, livre e com uma vontade brutal de me atirar no precipício e voar sem medo até ao fim do mundo! Tenho coragem para aproximar pé ante pé daquilo que é a mais profunda das viagens, ao extremos da vida! Fecho os olhos! Inspiro! Abro os braços e ali estou! No topo de tudo! Em cima da mais bela das sensações, do melhor dos momentos! Algures lá em baixo tenho as ondas do mar que tanto me confortou! Nem as gaivotas ousam voar tão alto! Sou a desilusão de Fernão! O meu corpo balança ao sabor do vento e, ainda de olhos fechados, escuto com atenção o som das brisas, dos gritos distantes! E berro! Berro com muita força! Expulso os meus medos, as minhas frustrações, as minhas raivas! Expulso a minha alegria, a minha vida! Expulso os meus fantasmas! Expulso as minhas guerras! E continuo ali a berrar, de olhos fechados! E os meus berros misturam-se com as lágrimas que me inundam a alma! E eu berro com todas as minhas forças! Lentamente perco as forças e sou obrigado a ajoelhar-me e a conter-me ali, banhado pelas mesmas lágrimas que me purificam a alma e inundam o coração! Perdi a voz, perdi centenas de pensamentos! Purifico as minhas sensações! Aprendo a encontrar-me, devagar! Junto as peças que fazem o meu manto de retalhos! Lentamente reconstruo-me e abro os olhos em direcção ao precipício que me chama, que me desafia! Porquê eu? Porque me aventuro na escalada quando não consigo descer? Porque tenho a minha alma tão presa? Porque me sinto tão distante? Porque não tenho, ali, as minhas respostas? A minha tranquilidade?! Eu só quero 5 minutos de Paz, de Tranquilidade! 5 minutos de vida! A vista daqui continua fabulosa, divina! Em pé, de mão esticada, sinto o abraço de uma nuvem que passa por mim; e a mão fica gelada! Quem me dera vencer o espaço, e saltar neste vazio, em direcção a um barco aportado ali no meu mar, de velas ao vento pronto a partir! Adorava conseguir viver! Tão simplesmente assim! E agora que aqui estou que vou fazer? Sento-me. Respiro fundo! Sinto o murmurar distante! Assim deixa de haver o amanhã! Não sei como fazer para viver cada dia em que tudo o que posso fazer é contemplar o meu paraíso! Já não sei estar sentado, muito menos vendado! Já não sei estar longe, nem conter as saudades! Escalei tanto que perdi o dom de voar! Libertei-me do passado, do presente, dos fantasmas e dos pensamentos negativos! Aprendi a amar o caminho que percorri, ter cada dia como único, saboreando as flores que teimam em abrir e alegrar a minha alma! Aprendi a amar o carinho que fui recebendo e a poupá-lo para os momentos mais longínquos, em que a solidão falasse mais alto! Aprendi a ser eu, a nada esperar, deliciando-me com a surpresa! Aprendi a sorrir e a estar ali, deliciado com a paisagem! Lutei pela minha tranquilidade, enterrei muito do que não gostava! Venci e fui derrotado! Levantei-me e aguentei as dores! Regenerei-me! Perdi-me muitas mais vezes do que aquelas em que fui capaz de me encontrar! Hoje aqui estou! No cimo do meu universo, admirando tudo aquilo que me rodeia e faz feliz! Sei que não estou sozinho; afinal aqui seria impossível! Os meus berros, as minhas lágrimas purgaram a minha alma, expulsaram os meus fantasmas, a minha dor! Resta-me ficar aqui e admirar o que tenho para admirar. Não consigo descer! Não quero cair! Quero apenas fechar os olhos e ser levado pelo vento e acordar já lá! Lá é onde tiver que ser, quando tiver que ser! Não quero mais sentir frio nem distância!

Sem comentários: