quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cartas Perdidas - 1.ª

Carta Perdida 1:
"Quando comecei a escrever esta carta, achei que já não te ia encontrar, que o tempo a ia levar para um amontoado de sentimentos longínquos, duros e cristalizados pelo passar dos anos! Não te quis dizer nada porque achei que não me saberias escutar! A minha alma pasma a surpresa do teu sorriso, delicia-se no som da tua gargalhada! Sempre foi assim, desde pequenino. O tempo passa e a vida também! Quando regressei achei que já não existiria o mel dos olhos que me admiram. Eu não sou o mesmo; sou diferente: mais velho, mais distante, mais frio, mais parvo! A guerra deu conta de mim, enrugou-me o sorriso, as mãos e o coração! Mas tu não: continuas o mesmo raio de sol, o mesmo delicioso luar; a idade fugiu de ti! Acho que me perdi pelo mato, pela vida; deixei de saber viver: misturei tantos sentimentos, tantos ódios, que me esqueci de mim próprio, do meu sorriso, da minha gargalhada! Perdi-me! Saudades tuas! E não digo coisa com coisa! Pensar em ti tolda-me os sentidos, desliga-me, faz-me fechar os olhos à força, com força e doçura; sinto-me criança e a minha pele enrugada ruboriza-se e cá dentro sei que coro! Quem me dera ouvir a tua voz mais vezes! Mas agarro-me às recordações que guardo junto ao coração, e vejo as fotos que tenho tuas sempre que fecho os olhos! Já não sei quando fazes anos; em verdade, já nem sei quantos fazes, ou fizeste! Sei apenas quando é o Natal porque não mo deixam esquecer! Deixei de rezar, de implorar; redimi-me e agora apenas me recolho em agradecimento àquilo que nem sei se tenho: vida! Não sei viver! Sei apenas que estou vivo porque ainda reconheço o som do respirar! Aprendi-o nas horas de solidão da minha guerra: distingo-o do bater acelerado do coração quando a adrenalina o alimenta! Descobri tanta coisa! Mas perdi-me! Nem tu foste capaz de ser a minha "rosa dos ventos"! Sinto-me senil e longínquo, com meros fios de vida! Por vezes questionei-me se efectivamente existes ou és apenas a minha "amarra", no meio do sofrimento, que criei para me proteger, qual "anjo da guarda"! Recordações da infância, dos dias à beira rio, dos passeios de bicicleta! Ah, e aquele beijo, lembras-te? O único e inesquecível beijo! Aquele que eu tanto sonhei, desejei e nunca chegou! Estou velho, já to disse? Perco a noção do tempo e do espaço! Não sei se algum dia terás sido capaz de ler as entrelinhas da minha vida e perceber que teve que ser assim! Sei que a tua resposta não chegará. Mas eu tento! Quero acreditar que do outro lado desse oceano há alguém que me entenda. Quero muito acreditar! Entende o sonho no meio das linhas de cozer com que brincávamos naqueles montes lá perto de casa! Ah, eu coro quando olhas para mim! E fazes-me balbuciar! Ainda hoje, desde "menino e moço" até a estes meus dias. Só quero acreditar que aquele teu sorriso divino é o mesmo, quero acreditar que estejas bem, quero acreditar que afinal, ainda existes!"
1950

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