quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Cartas Perdidas - 2.ª

Hoje chove! Não há sequer um pequeno raio de sol que ouse furar as negras nuvens que cobrem o meu pequeno mundo. Está tudo escuro, já parece noite, e mal saí da cama! O vento é frio, nem os casacos resistem! Não vejo uma única ave que se aventure nestes céus! Até a minha lareira brilha trémula, sem a força do crepitar tão característico que me aquece!
É assim neste meu pequeno paraíso, longe de tudo e de todos! Agrada-me o olhar para lá do horizonte que tenho aqui mesmo à saída da minha varanda, mas faz-me falta o essencial: tu! Para que me interessa ter o paraíso aos meus pés, se não tenho com quem o partilhar? Que me interessa ver as estrelas com o brilho mais doce e intenso de sempre, se não posso dar-te a mão, e sentir o teu cheiro mesmo ali, se não posso deliciar-me com o som da tua respiração ali mesmo do meu lado? Queria tanto que o meu mundo fosse o teu!
Engraçado como faz diferença a solidão no paraíso, e a solidão na guerra! Entre "elas" a mesma constante: sinto a tua falta exactamente da mesma forma! No paraíso, que é onde agora vivo, fazes-me falta porque queria partilhar todos estes segundos maravilhosos, desde o nascer do sol até à lua cheia, aos sons da natureza, ao brilhar dos nossos olhos! Na guerra, à qual sobrevivi, exactamente por esse motivo: foi graças à tua existência no meu pensamento que arranjei as forças para sobreviver.
Estou longe! Não sei de ti! Jamais esquecerei as tuas feições, a forma como o teu rosto modela o sorriso que aquece a minha alma! São segundos de vidas, inesquecíveis e inexplicáveis, que marcam uma breve existência, momentos tirados a dois, únicos, fortes, intensos; acima de tudo: verdadeiros!
Adoro olhar pela minha grande janela (da vida) e apreciar a tormenta que o céu se prepara para nos presentear! Aprecio o contraste do negro e azul escuro de tempestade, de trovoada, fascino-me com a grandiosidade dos relâmpagos! Mas faz-me falta a tua mão na minha; faz-me falta sentir a tua cabeça no meu ombro, a tua mão nas minhas costas! O brilho do teu olhar, é a Primavera e o Verão da minha vida!
- 1960