quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Injustiça da Palavra

Abomina-me a injustiça da palavra; a injustiça do pensamento destrutivo, mesmo quando vai contra tudo aquilo que sentimos e sabemos. Mas é assim, parece não haver solução; são palavras que se escondem atrás da língua e fazem remoer, e remoer, como se um arqueiro armasse a flecha. Palavras quase sempre certeiras na sua maldade, no ferimento mortal; palavras que voam mais rápido que a consciência daquilo que é correcto. Depois da flecha voar em direcção ao coração, trespassa-o sem dor, à velocidade da luz, mas deixa-o inerte, esvai-se num sangue de vermelho muito vivo, como se fosse essa mesma vida que perde. Espalham-se pedacinhos de letras pelo ar, que saíram da destruição das palavras; já nada resta! A sensação de observar algo moribundo é por si deprimente, não fosse verdadeiramente triste. Pequenos segundos marcam danos que jamais se curam, jamais se esquecem, mesmo que se perdoem. E o perdão é o conforto vago daqueles que erram, é algo que não existe, porque não se perdoa verdadeiramente: tenta-se esquecer, minimizar, controlar; mas não se esquece! Abomina-me a injustiça da palavra! Abomina-me a injustiça da beleza do voo da flecha, mesmo quando consigo antecipar o alvo. E é essa injustiça que me aperta o coração! "The pen is mightier than the sword!" - Edward Bulwer-Lytton (1839 in "Richelieu")