sexta-feira, 25 de março de 2011

O tempo passou...

Há momentos em que apetece navegar pelo horizonte dos pensamentos de criança, da solidão criada no pequeno espaço seguro, à prova de tudo! O vento lá do alto do farol, a gaivota que grita, a mão que afaga um rosto rude, cabelo grisalho, mãos endurecidas pelo tempo, a vontade de planar numa queda livre rumo ao desconhecido da alma! São viagens doces, inacabadas, em velocidade infinita, pelos cumes e picos desconhecidos! Olhos fechados, encostado na parede que me acalma, sensação de equilíbrio volátil! O peito voa em ansiedade, sem tranquilidade, sem medo, sem tempo, perdido num espaço vazio, onde o espaço e o tempo não impõem regras! Coração que bate, foge e salta, envolto na doçura do cheiro de jasmim... mas perdido no aqui e no agora, sem prever o amanhã! Faz falta a adrenalina, a tranquilidade, a paz interior, aquele abraço perdido no tempo, sem sentido nem obrigação! Faz falta renascer, faz falta perceber que não é com suspiros profundos que o mar suaviza, que o vento arrefece e esvazia a vela, habituada à bolina! E assim tudo recomeça, como se fosse um dia novo, como se o Sol fosse o mesmo, como se a palavra tivesse o mesmo valor e logo a Lua teria o mesmo tamanho! Engano: tudo muda ao segundo, tudo se altera, tudo tem o seu próprio desígnio, momento, local e sorriso! "O que foi não volta a ser" porque o tempo não volta atrás, e não controlamos o amanhã! E aquilo que perdemos hoje, o segundo, a oportunidade, o pequeno, doce e terno privilégio, aquele momento pensado com o carinho de quem o deseja tanto, amanhã não será o mesmo! Amanhã não será igual! Jamais representará na sua ínfima proporção o desejo do verdadeiro momento! O tempo passou, e com ele foi o "momento"!

domingo, 13 de março de 2011

... horas a mais...

Hoje sinto a nostalgia à flor da pele; sinto falta do meu norte, do meu paraíso, do meu montinho, do meu rio tinto! Sinto saudades das ruas de Vigo, dos passeios de barco pela baía em direcção à ilha que tanto gosto! Sinto a nostalgia do passeio pelas ruas da minha cidade, a ver caras conhecidas e envelhecidas pelo tempo! Olho para cada canto e imagino cenas passadas, afloram-me sorrisos e pensamentos tão distantes, ocultos! Sinto a falta das minhas esplanadas, dos abraços dos amigos do azul! E do pão!!! Adoro o pão lá do norte, aquele sabor, aquele estalar, misturada manteiga ou queijo da Serra! É um contraste social, de paisagens e faces, mesmo desconhecidas; de palavras ditas em alegria que noutros lados são menos educadas e eu tanto rio com isso! Mas sim, tenho saudades da minha Galiza, onde me sinto em casa! Saudades do espanhol, da cerveja de água! São momentos de nostalgia aos quais, invariavelmente, não consigo fugir! São já horas a mais em Lisboa, horas a mais sem fechar os olhos e sentir a tranquilidade de "casa"... seja lá isso onde for!

Fotografias do passado...

Quando menos se espera vem uma vaga que nos derruba e faz entrar num turbilhão de ideias, misturado com a areia da vida, que arranha as sensações da tranquilidade que já não se tem! É bom caminhar ali, admirar a beleza dos sorrisos espalhados pelo céu, mas é bom sentir a saudade dos momentos, mesmo daqueles que ainda virão, recheada pela saudade dos vividos, intensa e ardentemente. Quer a vida que o dia comece com o nascer do Sol, e termine com o nascer da Lua; e sabemos que isto acontece todos os dias, mesmo que não seja possível admirar o fenómeno! Ter oxigénio de manhã, no primeiro acordar, mesmo estremunhado, conseguir encher os pulmões e sentir a vida, é a primeira forma de vitória sobre tudo aquilo que nos quer derrubar! Amanhã é sempre outro dia, e cabe-me estar lá para sorrir! E não há fotografia nenhuma do passado que me faça sentir mais pequeno, mais sozinho, mais fechado na caixa de cartão derretida pelos pingos de chuva trazidos pelo vento! Sobrevivente ao mau tempo, determinado em navegar para além do horizonte, trocando o leme da minha vida pelas asas dos meus pensamentos, acreditando cada vez mais que a solidão é a resposta mais assertiva aos males da vida, é o melhor castelo, a melhor fortaleza. Não sejam estas palavras tristes, mas sim retratos de verdade envoltas em desejos de outros momentos, outras verdades, outro sorriso!

terça-feira, 1 de março de 2011

Pássaros e migalhas!

Longe vai a ideia dos velhos bancos de jardim, de um vermelho gasto e escuro, desfeito pelos tempos, pelas chuvas, pelo "levanta e senta", "senta e levanta"! Longe vai a ideia de sentar voltado para um futuro desconhecido, às vezes sem sentido, sem hora, sem história! No entanto, são esses momentos de aparente solidão, em que se passa pela desertificação dos sonhos, pela colheita daquilo que não se quer, pelo cuidadoso seleccionar do local onde pousar cada passo! O som agradável do vento, naquelas folhas, naquelas árvores, naquele chão, o voo ousado do pequeno pássaro até àquela migalha ali mesmo tão exposta, são exemplos claros da tranquilidade que a Alma deveria ter, mergulhada em pequenos picos de satisfação, de deleite, de sorriso! São horas que não passam, sensações que se querem viver, caminhos a percorrer! E a beleza daquele jardim, cheio de bancos gastos e sujos, mergulhado no odor característico da pura Natureza, é em si um pequeno e divino paraíso de sensações, de momentos! Mas será que chega? Será que ali se pode observar tudo com a clareza necessária para poder encostar e fechar os olhos no conforto do sono de um minuto? Queria saber, perceber, assimilar esta diferença, esta verdade! Queria sorrir no descanso merecido, poder fechar os olhos sem o medo de acordar a meio, queria muito acreditar! Bancos e vento, pássaros e migalhas, doces sonhos que nos fazem viver!