terça-feira, 2 de outubro de 2012

... não regressarei!

Mais um Verão depois e há coisas que não mudam: continuo ali próximo, gosto de molhar o pé, sentir a água pelas pernas, sentir o frio, saborear o sal no ar, apreciar o som das ondas que se enrolam e nos rodeiam; mas é só mesmo isso! É ficar ali, mesmo no início do (grande) oceano, e apreciar a sua beleza, a sua delicadeza, a sua imensidão; sorrir com as brincadeiras de gaivotas, e invejar aqueles destemidos que mergulham, onda após onda, para dentro de um universo desconhecido, e regressam acima deliciados e salgados! Eu e o mar cá nos entendemos: ele sabe que eu fico apenas ali, não por medo, ou falta de ousadia, mas por respeito, contemplação; a mim chega-me perfeitamente ficar ali à porta, e ali ficar, segundos, minutos, o tempo que, na verdade, me apetecer! E o mar não me leva a mal! O mar compreende-me e respeita-me: as ondas tornam-se deliciosamente leves, trazem acima a melhor espuma, e não são tão brutas na rebentação! Contudo, fica sempre o cheiro do mar, a maresia que tanto me inebria! É que, enquanto ali estou, observador atento (e compulsivo), viajo para lá do horizonte, planando mesmo em cima da crista da onda, raspando a ponta dos dedos ao de leve, na água, como um carinho, uma sensação húmida de mergulho! Vou lá e volto, mas nunca lá entro; o mar sabe! Sabe que no dia em que entrar, não regressarei!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Abrigo

E quando nos habituámos àquela visão matinal do rio que desagua no mar, tranquilo, sem uma onda que denuncie a pressa da união, da mistura salgada, do segundo imprevisível, sem sítio, mas que é por ali? Ao sol que nos entra janela dentro, já quente e ainda a névoa matinal não desapareceu?
A cada dia que passa, a sensação de estar "em casa" é cada vez mais doce, mais forte, mais óbvia; já custa sair dali, afastar, não regressar, hoje ou amanhã. É a casa do futuro, até um amanhã. Uma das vantagens da vida, é que tudo pode ser transportado, em caixas, no coração, em sonhos e em pedaços para qualquer outra parte do mundo! E levamos sempre tudo, nada fica para trás, a não ser aquilo que não quisermos. Mas aquela vista, ninguém ma tira! É nossa! Aquece manhãs, e adoça as noite, e torna-se mais fascinante ainda quando o nevoeiro ajuda. E assim, um espaço se torna casa, e dá abrigo a uma alma habituada a voar!

sábado, 28 de julho de 2012

“Quem se quer bem, sempre se encontra!”


Conheci Fernando Pereira há cerca de 10 anos. Para além da sua simpatia constante, descobri em pouco tempo as duas principais características do Fernando Pereira: é um génio e senhor de um talento inigualável; a sua capacidade de trabalho é brilhante, e vai para além das horas, da noite, da chuva, das centenas de km’s diários dos tours; o Fernando ainda trabalha quando já ninguém se aguenta em pé, mantém o sentido de humor de sempre, faz rir todos à sua volta; é senhor de uma genialidade imediata, criativa, superior, soberba! O Fernando é, sem sombra de dúvida, de forma totalmente inquestionável e mundial, o “Senhor das Vozes”, e isso nunca ninguém lhe tirará!
Em 30 anos de carreira já correu o mundo, encheu estádios, casinos, praças e avenidas! Cantou e encantou milhares e milhares de pessoas de todas as nacionalidades! Ele levou aos palcos do mundo alguns dos nossos melhores cantores, pois nunca se esquece das suas origens, para além de que muitos começaram com ele; impulsionou a carreira de muitos dos que hoje nos vão também presenteando com música em Português; Fernando Pereira é natural do país da inveja, do “pimba”, do humor de esquina; talvez seja por isso que nunca o vemos em programas que poucos entenderão, mas lideram audiências. Tão-somente quero com isto dizer, que me magoa ver alguém que, apesar da forma como é tratado cá dentro, não se cansa de representar Portugal em todo o mundo, da forma que só ele sabe fazer; por estranha que esta comparação possa parecer, Fernando Pereira é no mundo da música internacional o nosso “Mourinho” ou, se quiserem, o nosso “Cristiano Ronaldo”.
Assim se passam 30 anos na vida de alguém que entrega a sua própria vida a encantar os outros. Já assistiram a um espetáculo inteiro do Fernando? Cheios de luz, som, e criatividade, são viagens no tempo que se tornam inesquecíveis; impossível não gostar, não cantar, não dançar! Impossível não regressar a casa de sorriso rasgado a pensar naquela viagem intemporal. Até porque uma das principais características do Fernando é ser, exatamente, intemporal. E o Fernando é amigo; daqueles amigos que não esquecemos, daqueles que fazem coisas que são inesquecíveis, e só a alma dos amigos se recordará para sempre disso! Como agradecer ao Fernando o prefácio que escreveu “ao correr da pena” no meu primeiro livro?
Tenho o privilégio de conviver com Fernando Pereira, de conhecer os seus sucessos e angústias, de já o ter visto rir e chorar, e vejo-o sempre com uma palavra amiga, com um sorriso, uma piada, um abraço, uma boa disposição contagiante. E o Fernando é, sem sombra de dúvida, o maior talento internacional de sempre; não sou eu que o digo apenas; eu sou apenas um amigo! O Fernando não perde um momento, uma entrevista, para afirmar-se Português; e fá-lo com a honestidade intelectual de quem tem sido, ao longo dos anos, menosprezado por muitos cegos de inveja. Reconhecer este génio da nossa cultura é uma obrigação moral, patriótica, imediata! Fernando Pereira é Portugal: há 30 anos!
Estas palavras são o meu tributo pessoal, são o meu “posfácio” dos seus 30 anos de carreira! E termino com a sua célebre saudação: “Quem se quer bem, sempre se encontra!” - obrigado Fernando Pereira!



sexta-feira, 1 de junho de 2012

... feito de sensações!

Sento-me à espreita da próxima onda, do próximo momento de tranquilidade, mesmo quando sei que ela não vem, está longe ou chateada comigo! Engraçado o efeito contínuo que o mar tem em mim; engraçado a forma como o sabor da maresia me ajuda a respirar, relaxa-me! Gostava de poder misturar isso tudo! Conduzir com os vidros abertos, sempre paralelo ao mar, sol a brilhar, rádio nas alturas com uma boa ópera, ou algo que me faça estremecer! Conduzo assim: faz-me bem! Encosto a cabeça atrás, inspiro fundo e deixo-me levar! Estremeço com a sonoridade que me relaxa! Relaxo com a sonoridade que me tranquiliza! Sou um ser feito de sensações, de estímulos; respondo ao cheiro do mar, inebrio-me na tranquilidade do sabor, do frio da água, do salgado que fica nos lábios; adoro a velocidade no cabelo, o som a estremecer-me a alma, vozes roucas que se elevam no meu horizonte!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Oh Captain, my Captain!

"Oh Captain, my Captain!" - devo ter ouvido esta expressão pela primeira vez na década de 80, já no século passado; era eu um adolescente que admirava ler algumas rimas, e pensava que sabia escrever poesia. Vi um filme chamado "Clube dos Poetas Mortos", e acordei para a realidade poética da vida; depois daquele dia, e muitas lágrimas derramadas pelo final brutal e inesquecível do filme, eu percebi que talvez soubesse mesmo escrever! A verdade, é que jamais deixei de o fazer!
Por muito marcante que fosse aquele final, mais marcante ainda foi a expressão: "Oh Captain, my Captain!"; famoso poema de Whitman sobre Lincoln, o seu significado acompanha-me desde aí: recordo aquelas expressões jovens, doces, irreverentes a erguer-se acima das suas vidas, subindo para as mesas, batendo os pés e afirmando o maior elogio de sempre: "Oh Captain, my Captain!" - eu reconheço o teu valor, mudaste a minha vida, permitiste-me ver mais longe, mais além, dás-me a sensação de conforto e respeito que eu tanto preciso, fizeste-me subir aos céus quando eu pensava que nem um passo daria! São estes pedaços de admiração que nos ficam para sempre, são poucas as pessoas que se nos cruzam o caminho e merecem tal honra!
Eu conheço alguns; já chamei isso a algumas dessas pessoas; e acredito que sou uma pessoa melhor! Quantas pessoas que passaram pela vida, deixam um pouco de si, levam um pouco de nós ("O Principezinho, Saint-Exupéry), mas quantos não deixam nada, nem bom, nem mau, perdendo-se rua abaixo, sabe-se lá para que direcção? Também não interessa!
Talvez não sejam muitos os que mereçam tal distinção, mas há aqueles que a têm e não sabem! Talvez seja melhor assim! Há muitas medalhas que não são usadas, mas são seguramente marcantes e inesquecíveis. Tudo o que realmente interessa está guardado no nosso coração!
"Oh Captain, my Captain!" - podes ser tu, meu pai, tu, meu amigo! Quem quer que sejas, admiro-te!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Apaziguador?

Vou entrar na louca e vertiginosa viagem ao meu mundo; àquele pequeno espaço impoluto, fechado em vidro, lá longe, onde o mar e os céus se tocam, bem lá na curva da vida! É a vontade da viagem final, do são recolhimento à génese dos meus pensamentos, dos meus segundos vividos com sabor, com espuma do mar, com odor a maresia! Bem queria lá passar as minhas férias, descansar os pensamentos, curar o cansaço que já vai deixando as suas marcas! É nestes pequenos espaços mentais, escondidos pela Alma, que encontramos os momentos de dignidade a que temos direito. Lá longe, onde quer que isso seja, mas que seja nosso, acolhedor e, se possível, apaziguador!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Lá no cantinho...

Nem sempre sei aquilo que se passa; arredo-me do mundo, da informação, e fico ali no meu canto de sempre, protegido do nada ou, quem sabe, de qualquer coisa invisível que me viola o espaço! Às vezes passam-se horas, e a minha mente continua longe, a vaguear sem grande destino ou sentido. A chuva cai miudinha lá fora e sei que as ondas "picam" a praia! Gostava de molhar os pés no meu mar, entrar água dentro e exorcizar-me da Alma aos pés, mergulhando no desconhecido, nadando sem parar! São assim os momentos de pouca lucidez ou de escuridão: chove!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Preciso de mergulhar!

Há dias que a cabeça fica cheia de coisas vagas, sem sentido, sem nexo! Por muitas voltas que se dê, nada se compõe para além da incompreensão aparente do "nada". É bom poder sair, abrir uma porta e caminhar sem sentido, directo ao pouco da tranquilidade da tarde com quatro estações, mas sempre com um fio de sol pela testa! São dias assim que fazem desesperar pela tranquilidade do fim-de-semana, pela manhã tranquila de um qualquer Domingo de sol em frente ao mar, seja isso onde for! Faz-me falta o mar mais perto, quando o tenho mesmo no meu campo de visão, ao acordar, ao deitar, ao sonhar! Preciso da sensação intemporal do vento à minha volta, do som do mar ali ao lado, de observar a acrobacia das gaivotas mais irreverentes! Preciso de férias, quem sabe de mim! Preciso de escrever mais, de me auto-exorcizar! Preciso de mergulhar!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Pesadelo...

No pesadelo de hoje, caí de uma altura suficiente para não me lembrar de mais nada. Tirou-me o sono, a vontade de me aconchegar frente ao mar que me iluminava. Fiquei acordado, a dançar no meio dos meus pensamentos, mas sempre com o medo de voltar a cair. A custo fui mantendo os olhos abertos, receoso que o pesadelo voltasse! Ali fiquei, deitado, enrolado em mim próprio, protegendo-me com um manto delicado e branco, sem saber o que fazer. Meio perdido pela hora, pela escuridão, pelo brilho da ponte, lá ao longe, e de meia dúzia de raios de sol que teimavam em subir a colina lá do outro lado! Detesto ter pesadelos, mas não sei como os evitar! Preferia dormir aconchegado para me proteger, acordar a sorrir, aquecido pelos raios de sol. É o meu prenúncio de um dia que não quero! Resta-me sentar, respirar e, com os olhos fechados, saber que há mais para além desta noite mal dormida, deste desconforto que não me abandona, deste inspirar surdo sem memória, pedaço de sono, de noite sem glória.