segunda-feira, 26 de junho de 2017

Promessas

Promessas de tudo. Do poema que nunca foi escrito. Da letra que nunca foi cantada. De todos os momentos à beira mar. De todas as corridas. De todos os sentidos. De todos os olhares. De todas as sensações. De todos os toques. Da mão dada. Da vida pela frente. Do envelhecer. Do nada. Promessas de tudo, e nada. Nada, vazias. Promessas do tudo, e do nada, como se o amanhã não existisse.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Adivinhar

Na sensação de perda, está tudo lá. Tudo. Os momentos, as alegrias, os sorrisos, os olhares e até os cheiros. Recordas com precisão acutilante tudo aquilo que te altera, que mexe contigo, que te leva às mais estranhas sensações de perda. Que te leva ao abismo, na mistura daquela música que te conforta o espírito. Não há um dia, um momento, em que estejas mesmo aqui. Cá, ou ali. Ou em lado algum. Percebes o que é realmente deambular sem sentido ou direcção. Nada tem significado, nem a comida tem sabor. Nem o cheiro tem odor. O cérebro prega-te partidas. Passaste dias, meses, anos, a imaginar milhares de peças de um puzzle, colocadas pacientemente e, de repente, tudo voa. Sem direcção. Sem sentido. Assim, sabe-se lá porquê. Porque o vento quis. Porque o destino seria aquele. E o cérebro continua a pregar-te partidas. E continuas sem sabor. E adormeces embalado pelo choro miudinho de quem quer esconder a dor. E caminhas como dantes, porque sabes que por dentro estás destruído, e os 6 meses que te restam jamais te trarão a tranquilidade daqueles momentos, das alegrias, dos sorrisos, dos olhares, e até dos cheiros. Tudo termina. Não sabemos é como, mas às vezes bem que adivinhamos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Luto na ingratidão

Procuro sempre esquecer quem já não se quer lembrar de mim. Mas é aí que tudo complica. É nesse momento que se percebe que há quem seja inesquecível. É nesse momento que se percebe que há quem seja imprescindível. E é também nesse mesmo momento que se percebe que são raros aqueles que se tornam inesquecíveis e imprescindíveis. E agora? Qual o lado da ponte que se afigurará como a saída que se procura quando não se quer encontrar? Como se dorme? Como se fecha os olhos e se impede a viagem até cada um daqueles milésimos de segundos? Como é que se acorda sem a agonia de sentir a distância? Sinceramente, não sei. Talvez a resposta esteja na mágoa que nos dilacera lentamente. Não há luto que resulte. Não há luto que impeça o sentimento. Não há luto que trave o pensamento. Mas também não lutamos contra quem já não se quer lembrar de nós. A ingratidão, por vezes, expressa-se de forma peculiar.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Entre Chopin, a Alma e a Saudade

Porque há manhãs em que a saudade é uma miragem do passado, daqueles momentos inesquecíveis, que se eternizaram na alma, e teimam em recordar, dia após dia, sol após sol. A saudade atrofia tudo: atrofia os olhos, que se encharcam em lágrimas que lavam, mas não curam; atrofia o simples pensamento, fazendo reviver sorrisos; atrofia o adormecer, porque os pensamentos vagueiam pelas notas de Chopin. E assim se percebe muita coisa. Assim se cresce, desiludindo, falhando, mesmo quando o amor se tornou único. Assim se ganha medo à saudade. Assim nos refugiamos em Chopin, porque sabemos que ali encontramos um pouco daquilo que sabemos chorar. E sorrimos, de olhos fechados, porque sentimos e cheiramos. E Chopin tranquiliza a alma.