terça-feira, 20 de junho de 2017

Adivinhar

Na sensação de perda, está tudo lá. Tudo. Os momentos, as alegrias, os sorrisos, os olhares e até os cheiros. Recordas com precisão acutilante tudo aquilo que te altera, que mexe contigo, que te leva às mais estranhas sensações de perda. Que te leva ao abismo, na mistura daquela música que te conforta o espírito. Não há um dia, um momento, em que estejas mesmo aqui. Cá, ou ali. Ou em lado algum. Percebes o que é realmente deambular sem sentido ou direcção. Nada tem significado, nem a comida tem sabor. Nem o cheiro tem odor. O cérebro prega-te partidas. Passaste dias, meses, anos, a imaginar milhares de peças de um puzzle, colocadas pacientemente e, de repente, tudo voa. Sem direcção. Sem sentido. Assim, sabe-se lá porquê. Porque o vento quis. Porque o destino seria aquele. E o cérebro continua a pregar-te partidas. E continuas sem sabor. E adormeces embalado pelo choro miudinho de quem quer esconder a dor. E caminhas como dantes, porque sabes que por dentro estás destruído, e os 6 meses que te restam jamais te trarão a tranquilidade daqueles momentos, das alegrias, dos sorrisos, dos olhares, e até dos cheiros. Tudo termina. Não sabemos é como, mas às vezes bem que adivinhamos.